
Este texto eu recebi no dia 23/01/2008 de uma pessoa querida, que hoje não esta mais presente em minha vida.
Muito obrigada Ana Claudia!!!Um texto que posso ser lido e relido, e terá varias formas de encaixe em nossas vidas.
“Conselho que não entendo não me praz: é agouro!”. Seu Gorgulho personagem de Guimarães Rosa em o Recado do Morro.
Só não perde nenhum amigo aquele a quem todos são queridos nAquele que nunca perdemos. Santo Agostinho.
Nós nos olhávamos nos olhos, nós voávamos alto e éramos tão belos; eu não quis decair. Flaubert.
Quando o outro se relaciona comigo de tal maneira que o desconhecido em mim lhe responde no meu lugar, essa resposta é a amizade imemorial, que não se deixa escolher, que não se deixa viver no atual...Maurice Blanchot, L`Éscriture du désastre.
Nem o maior dos egoístas pode deixar de precisar de alguém, porém, ele apenas engloba quem precisa em seu próprio exclusivismo e com isto imagina estar estabelecendo amizades. Há quem se aproveite do rótulo de amigo, meus companheiros de solidão, para cometer as maiores indelicadezas que só um ser humano é capaz. Lealdade é coisa de lendas antigas, coragem é, hoje em dia, o que te deixará inevitavelmente sozinho. Nossa sociedade não foi construída para que se tenha honra, é a sociedade dos carentes, dos invejosos, dos fofoqueiros, dos traidores e principalmente dos oportunistas. É fácil observar como é vigente a lei de que só é amigo aquele que te traz alguma coisa, só é amigo quem te adula e concorda com você, mas principalmente, alguém de quem você pode tirar proveito.
Sim, muitos pensam que ser amigo é também poder dizer “verdades” sobre você, ou seja, erros seus que o suposto pode apontar porque afinal gosta de você e só está enfiando o dedo na sua ferida para o seu bem. Percebo que muitos se aliviam ao encontrarem defeitos nos outros. Parece que isto também serve como desculpa para os próprios ou confere ao apontador um ar de superioridade.
Enfrentar com coragem suas dificuldades espelhadas no outro, isto não se quererá. É sempre preferível retrair-se e fugir com a desculpa de que se precisa ficar sozinho, do que olhar no olho de quem uma atitude sua causou mágoa e dor. Rever-se, resignificar-se, reavaliar-se. Não, isto seria para os corajosos e nossos tempos não são para estes, são para os machos (incluindo as mulheres, sem conotação sexual), que têm orgulho, imagem, ego, uma enorme tendência a se encostar em quem os beneficia, mas pouquíssima capacidade de se reconhecer. Assim abandonam-se filhos, amores, companheiros, sempre se arranjando alguma desculpa que justifique um ato de covardia. E sabemos, há desculpa para tudo. Porém, a valentia não é uma exibição social procurando elogios e admiração, é um requisito básico para se ter bom coração. Os valentes não estão interessados em arranjar subterfúgios, ao contrário, querem se entregar. Pedir desculpa ou perdão por displicências cometidas é algo simples e rápido para limpar uma consciência pronta a cometer novas desatenções, mas reconhecer os próprios erros já é bem mais difícil. E o perdão, no entanto, nada mais é do que uma técnica de descristalização e não uma concessão que confere soberba ao perdoador, assim eu penso.
Para muitas pessoas, vejo, amigos e borboletas são a mesma coisa, objetos de coleção. Expõem-se as borboletas espetadas em alfinetes em quadrinhos na parede, ou em fotinhos no orkut. Eleger uma galeria como para que convencer-se de que sua vida é cercada de companheirismo e amor, sendo estes afetos obviamente adaptáveis às suas necessidades de carência e “aprendizado” (palavra da moda, desculpa clássica, com a qual o sujeito pode fazer a merda que for com a escusa de que pelo menos está aprendendo com suas cagadas). Um ensino em que na maioria das vezes o professor é o próprio aluno, que diz para si mesmo a matéria e ainda resume tudo a um cínico sorriso acompanhado de um “eu aprendi”, ou do clássico bordão da estagnação moderna: “eu mudei”. E assim que é posto à prova mostra que tal mudança é da boca pra fora.
Parentesco há entre a Amizade e a Música, entre a Amizade e o Silêncio. Saber ouvir, saber estar ao lado, saber incentivar, prestigiar a crise alheia, o trabalho, a busca de alguém é antes de tudo, dar a si mesmo o presente da presença: ser para a generosidade. Que não é o exercício do caritatismo que preenche a falta da vocação e sim uma energia que traz equilíbrio ao mundo. Hoje penso que nada é superior à Amizade, nem mesmo o amor que nela está contido. Aliás, penso que um dos encantos da Amizade é que as pessoas vulgares não se interessam por ela, preferem estar amando alguém, ou a mando de.
Tenho tentado deixar de ser o tal amigo (que modernamente se tornou aquele que é melhor do que os outros só porque é seu, e isto inclui filhos, parceiros e familiares) para poder exercer a Amizade. Conduta ética que deve estar sempre presente em todos os nossos atos. A Amizade, em nome da justiça e em defesa da própria deve inclusive erguer-se contra os amigos que se beneficiam dela para abusar.
Não quero “amigos” e verdadeiramente não os tenho, quero a Amizade, esta que até um desconhecido pode praticar com você. Gosto das borboletas voando.
O Amigo é um dos nomes de Deus.
Texto retirado do blog Pardo Teatro escrito por Leo Lama